Diferente dos animais que jamais conhecem seus avós, na cultura humana os pais aprendem com seus pais o que fazer e como fazer. Uma geração passa informações para a seguinte e assim as diferentes culturas aparecem no modo de cuidar e alimentar, nas formas de comemorar datas significativas, na criação de hábitos, nos valores religiosos.

Quando nasce uma criança as diferenças entre a cultura materna e paterna se potencializam, sobretudo quando os avós entram em cena, estabelecendo alianças e competições. Muitas vezes avó e avô, pouco a vontade com a nova função tendem a se relacionar com o bebê de um modo já conhecido, como mãe e pai. O lugar de avó não coincide com o de mãe. Há uma evidente sobrecarga para a mãe do bebê: além das inúmeras questões envolvidas na função materna, é exigida a tarefa diplomática de conciliação entre famílias.

Avós também podem se sentir marinheiros de primeira viagem, e precisam se dispor a um novo aprendizado. Aquele de deixar o espaço de pai e mãe livre para que os novos pais, de direito, experimentem e construam, de forma única, singular, suas ações diante do filho. Só aí é que eles se tornam pais de fato. A delicadeza, paciência dos avós diante da vulnerabilidade dos pais é preciosa e construtiva.

Encontrar o seu lugar enquanto elo de uma corrente maior de transmissão de afeto e valores permite que a relação entre avós e netos torne-se gostosa e inesquecível. Avós também podem ser inestimáveis quando nasce um segundo ou terceiro filho. Não poucas vezes os pais se sentem desleais com o primogênito, e a ajuda dos avós minimiza a falta de tempo e disponibilidade nestes primeiros tempos de nascimento. Os avós ajudam a suportar as crises, justas, de ciúmes, de experiência de perda. Os avós oferecem às crianças uma escuta desprovida das tensões do dia a dia e podem contar histórias da família que os netos adoram escutar.

A arte de ser avós consiste na arte de ser pais de filhos adultos, o que requer um delicado equilíbrio entre estar disponível quando necessário e não ser invasivo. Tornar-se avó e avô exige elaborar a constatação da vinda de uma nova geração, de que o tempo da juventude passou, e que a vida cobra agora o preenchimento de novos lugares.

Eva Wongtschowski e Anna Mehoudar
Psicanalistas
3079-6642