Cuidar de um bebê é sempre cansativo.

O cansaço da maioria dos pais começa com as noites mal dormidas do recém-nascido e pode se arrastar vida afora.

É comum ouvirmos expressões como: – Estou exausta, acabada, destruída, cheguei ao limite, não dou conta. Na maioria das vezes a fala é da mulher, mas também pode ser uma expressão do casal.

No começo não há trégua mesmo, o recém-nascido exige cuidados ininterruptos. Ele não tem dia, nem noite e seu comportamento beira o caos. A arte do pós-parto é justamente aquela de saborear os intervalos: descansar quando o bebê descansa.

Criar rotinas para que a casa continue funcionando. Os filhos crescem e continuam exigindo um trabalho diário que se repete por anos e anos, em diferentes graus de intensidades. Essa trabalheira costuma ser assumida com mais ou menos dificuldade pelos pais. Eles se organizam, dividem tarefas, buscam ajudas para recuperar frações de tempo para si e para projetos que não incluem crianças.

Entretanto, temos observado outra qualidade de cansaço. Um cansaço exasperante, que convive com a família e transtorna as relações familiares.

Sem pretender esgotar a questão vamos nos deter na observação desses pais “à beira de um ataque de nervos”.

Pensamos que esse cansaço pode ser evitado, se um novo prumo direcionar o dia a dia… Muitas vezes é mais fácil dar guloseimas às crianças ao invés de refeições com nutrientes variados! Outras é mais gostoso adiar a hora de colocar as crianças na cama para ficar no sofá vendo TV! A dificuldade do adulto em instalar certos hábitos na rotina da casa, tende a confundir as crianças e piorar substancialmente a situação.
Muitas e muitas vezes…
É mais fácil ceder, do que dizer não!
Do que alinhar certo prumo, certa ordem.

Todos nós, enquanto filhos, herdamos a possibilidade de um dia ocuparmos o lugar de pais. Mas parece que esta passagem nem sempre é fácil. Muitas vezes, sem que os adultos se dêem conta, o adiamento da ação vem do desejo de permanecer na situação de deleite infantil, e ser cuidado ao invés de cuidar. Ou seja, os pais competem com os filhos pelo prazer do sofá!

Pais que não ocupam o lugar de pais, junto aos filhos, pagam um preço enorme!

O dia a dia fica impregnado de cansaço, explosões, gritaria e perda de paciência. Sim, crianças que passam da hora de dormir dão muito mais trabalho, fazem cenas, se irritam, levam os pais a perder a cabeça. Crianças mal alimentadas são especialmente mal humoradas e choronas. Crianças que não cooperam pesam… Quanto mais se arrasta no tempo a “ausência” dos pais, na função de educadores, maior é o drama familiar.

Educar pressupõe ocupar o lugar daqueles que nos educaram. Ou seja, apropriar-se da própria história para construir uma nova história: colocar as crianças na cama, para que a casa possa ser confortavelmente usufruída por adultos que assim assumem seus lugares, legitimamente conquistados. E podem descansar.

Anna Mehoudar e Helena Grinover
Psicanalistas