O nascimento de uma criança é razão legitima para festa e comemoração. O bebê representa novas possibilidades. Ele ainda é desconhecido e misterioso mas aceita todas as apostas do que poderá vir a ser.

O bebê está ávido por contato, por fazer parte, por ocupar seu lugar na família em que nasceu. É o começo do seu começo.

Do lado da mãe as coisas se passam também como se fosse um novo começo, um momento de passagem, cheio de imprevistos e indefinições.

Um ponto, pouco lembrado, é que nos primeiros dias após o parto a mulher fica descentrada. De novo. Tanto do ponto de vista físico quanto psíquico. Durante nove meses ela teve que ir refazendo seu centro de gravidade na medida do crescimento do filho no útero. De um momento para o outro o ponto de equilíbrio muda mais uma vez. É preciso buscar um novo equilibro, agora com um corpo que é outro. Outro porque vem exercendo novas funções de gestar e alimentar. Faz parte desse descentramento uma fragilidade psíquica, onde dificuldades, expectativas não cumpridas , ou mesmo mudanças inesperadas do dia a dia se tornam razão para o choro, a insegurança, as vezes o desespero.

Palavras aparentemente inócuas, ditas pelos profissionais da maternidade, parentes ou amigos, podem adquirir um peso imenso.

Embora precise de um tempo para se recompor da experiência do parto e do contato com o filho, a mulher é exigida para enfrentar muito, ao mesmo tempo.

Vamos citar um ponto: a percepção de que aquela saia ou vestido não cabem confirmam a mudança do corpo e pode vir revestida de muita angustia e atos radicais. É como se ela se sentisse, em tempos de desvarios por um corpo delgado, excluída do grupo de mulheres que contam. Revistas mostram mulheres com seus bebês recém-nascidos, elegantíssimas, sorrindo e novas em folha. Estas imagens nos levam a perguntar se não foi mesmo a cegonha que trouxe aquele bebê ao mundo.

Pressões profissionais e o temor de perder um lugar de prestigio na mídia talvez sejam razões que impeçam essas mulheres de respeitar o ritmo próprio do corpo em mudança. Um tempo necessário para construir novos pontos de equilíbrio. Não é pouco pensar que esse ritmo solicitado pelo corpo tem ligação com a complexidade da relação que se inicia com o bebê.

É um tempo de construção de um relacionamento delicado, que exige tempo e atenção. Insubstituível, intransferível e único.

Anna Mehoudar e Eva Wongtschowski
Psicanalistas
3079-6642