Mudanças na casa, desde simples reformas a troca de endereço pressupõem, via de regra, a projeção de um estilo de vida que se quer ter.
Quando a família cresce os pais precisam pensar nos espaços que ocupam e de que forma são ocupados. Afinal, o que o espaço oferece, qual será o conceito norteador do projeto, que relação quero ter com a cidade, o que é importante conservar e o que é necessário mudar?

Mudanças alteram os gestos mais automáticos e os movimentos mais simples. Interferem no dia a dia e nos mostram o quanto os hábitos estão arraigados nos nossos músculos.

Novos espaços nos levam a pensar, por segundos, onde estão os interruptores, se saímos para a direita ou para a esquerda e assim por diante. Mudanças também nos levam a selecionar que objetos permanecerão conosco e quais não precisam mais fazer parte da nossa vida.

Muitas vezes ansiamos por mudanças, mas ao mesmo tempo elas nos assustam. O que mudar, quando mudar e para que mudar?

Podemos pensar que a alternância entre a instabilidade e a mudança e a estabilidade nos acompanha desde a concepção. Quando em formação, a parede uterina contorna o feto e lhe dá continência, ou seja, estabilidade para acomodar a altíssima velocidade requerida para a construção do bebê.

Com o nascimento, a placenta torna-se dispensável. Durante toda a sua existência o ser humano continuará a se movimentar e a se desenvolver entre esses dois pólos. Os bebês se acalmam com vozes, cheiros e batimentos cardíacos conhecidos. Por outro lado, alterações no ambiente e solicitações diversificadas funcionam como estímulo ao crescimento.

Se a referência materna é fundamental, a inclusão de outros adultos, que funcionam em diferentes registros, além de inevitável, também é muito bem vinda: ora é a mãe, ora o pai, outras vezes são os avós, os tios e os professores.

A vida psíquica seria impensável sem a exploração de novos espaços como o próprio corpo, o corpo da mãe, o colo do pai, o berço, a casa da avó, a escola, o clube… a cidade, o mundo.

A rotina fornece alicerces para construir segurança, a diversificação permite movimento, abre perspectivas, estimula.

O confronto entre esses dois pólos leva o ser humano a identificar o eixo estável que está dentro das mudanças e isso o impulsiona a enfrentar desafios e ampliar seus vínculos sociais. Como exemplo, o aluno perceberá que mudam os professores, mas permanece a figura de alguém que ensina e a vontade de aprender. E mesmo na adolescência, quando as referencias precisam ser questionadas, as fundações construídas na infância funcionam como uma bússola na exploração do mundo. Em algumas situações de maior vulnerabilidade, no entanto, como na canção de Rita Lee, queremos todos “voltar invisíveis para dentro da barriga da mamãe”.

Se algumas mudanças exigem arquitetos e engenheiros, outras requerem o trabalho de um psicoterapeuta. Beneficiam-se do contato com esses profissionais as pessoas que não conseguem mudar. Sair da imobilidade permite apreciar o diferente, desenhar novas perspectivas de vida, independente da idade cronológica que se tem. Já dizia o ditado: quem muda de lugar, muda a sua sorte.

Anna Mehoudar e Marcia Arantes
Psicanalistas