23/01/2013

LIVRO – Da gravidez aos cuidados com o bebê – Um manual para pais e profissionais

Uma rede de apoio que incluia ajuda profissional é fundamental para o equilíbrio.

O processo do parto terminou e o bebê nasceu. Começa o “pós-parto” ou o “quarto trimestre da gestação”. A ligação entre a mãe e o bebê permanece intensa. O bebê, no entanto, adapta-se e começa a existir. A mãe, por sua vez, vive uma avalanche de alterações orgânicas e emocionais. De acordo com a psicanalista Anna Mehoudar, autora do livro Da gravidez aos cuidados com o bebê – Um manual para pais e profissionais, que há 25 anos atua no atendimento interdisciplinar de gestantes e famílias, esse é o momento que a mãe mais precisa de apoio. E nem sempre a família está preparada. Em alguns casos, a presença de familiares pode deixar a mãe ainda mais insegura e colaborar até para o desmame precoce. Em geral, mitos, crenças e conselhos não sanam as principais dúvidas. Às vezes, a ajuda profissional é o melhor caminho para encontrar as soluções.

De acordo com Anna, a mulher precisa de espaço para elaborar o luto no pós-parto. Ela perde a barriga; a condição de ser apenas filha, pois agora é mãe; a atenção de todos, porque o bebê rouba a cena. O seu tempo não mais lhe pertence, pois será dedicado ao recém-nascido; o casal dificilmente consegue ficar sozinho. Desconfia-se, como na canção de Caetano Veloso, que “alguma coisa está fora da ordem”.

“Sentimentos de insegurança, solidão, ciúmes, raiva e impotência podem aparecer de diferentes formas”, afirma a psicanalista. Será que o meu leite é suficiente? Quando vou conseguir dormir de novo? Será que vou dar conta? Não sei o que fazer, o bebê não para de chorar! O bebê está tão quieto, será que isso normal? Segundo Anna, esses pensamentos permeiam a vida das mães nos primeiros dias do bebê. Algumas, excessivamente atentas, chegam a acordar o bebê sem necessidade para ter certeza de que está tudo bem. Tudo isso é normal.

Mas é preciso atenção aos sinais que demonstram uma alteração psicológica mais intensa. “É fundamental conhecer um pouco mais sobre os distúrbios, identificá-los e tratá-los se for necessário”, afirma Anna. A tristeza materna ou baby blues, por exemplo, é a alteração mais comum. Caracteriza-se por um estado de humor depressivo que acontece a partir da primeira semana pós-parto. Acomete cerca de 70% a 80% das mulheres e pode durar até 30 dias. Às vezes, a mãe sente-se incapaz de lidar com o filho, embora cuide dele com responsabilidade. Tem crises de choro sem motivo aparente ou chora junto com o bebê. Tristeza, cansaço e irritação convivem com alegria e euforia.

A depressão pós-parto materna é um quadro clínico mais grave, que requer acompanhamento psicológico e psiquiátrico, pois muitas vezes é necessária uma intervenção com medicamentos. É importante que outro adulto cuide do bebê (ou ajude a cuidar dele) até que a mãe se recupere. Esse tipo de depressão atinge entre 10% e 15% das mulheres. Pode começar na primeira semana após o parto e perdurar por até dois anos. As mulheres costumam se sentir culpadas e tentam esconder um sofrimento intenso, muitas vezes mal compreendido pela família e pelos médicos. Em geral elas experimentam tristeza profunda e choro incontrolável. Apresentam irritabilidade e mudanças bruscas de humor, além de indisposição, falta de concentração e distúrbios do sono e/ou apetite. Mostram preocupação excessiva com o bebê ou perda de interesse por ele. Algumas têm medo de machucar os filhos. No extremo, surgem pensamentos suicidas e homicidas.

Já a psicose puerperal é distúrbio mental ainda mais grave, mas tende a se manifestar em menos de 1% das puérperas, de forma inesperada, nas duas primeiras semanas após o parto. A família precisa intervir de imediato. A puérpera tem comportamentos bizarros e desorganizados, delírios, alucinações e agitação psicomotora. A principal temática dos delírios está ligada ao bebê e a mulher pode ficar agressiva. Também há risco de suicídio. Nesse estado, a mulher precisa de acompanhamento, medicação psiquiátrica e, em casos graves, internação hospitalar.

No livro Da gravidez aos cuidados com o bebê, Anna Mehoudar aborda aspectos físicos e psicológicos da gestação e dos primeiros meses com o bebê.

É um rico manual que trata um tema comum de maneira incomum, com atenção psicológica para cada etapa da gestação e do pós-parto.

No livro, o leitor encontrará informações imprescindíveis sobre as diferentes fases do processo gestacional – das roupinhas que devem ser levadas à maternidade aos sinais de atenção para a depressão pós-parto; dos direitos da gestante às vacinas recomendadas. Tudo permeado pelo olhar experiente de quem já acolheu milhares de pais e mães e realiza um trabalho com obstetras, pediatras, enfermeiros e psicólogos.

Dividida em oito capítulos, a obra responde a perguntas e inquietações frequentes em reuniões de preparo para o parto e cuidados com o bebê. No capítulo “A gravidez: tempo de espera”, a psicanalista fala do tempo provável de gestação, da gravidez e da sexualidade, do pré-natal, da evolução em cada trimestre e dos sinais de desconforto e alerta. Em “O parto: uma passagem”, Anna destaca passo a passo um plano de parto, dos sinais de aproximação e confirmação do trabalho de parto aos estágios do processo de nascimento. Já em “O pós-parto: novos tempos”, ela esclarece as dúvidas mais comuns sobre as primeiras horas de vida do bebê e aborda aspectos psicológicos do pós-parto, ressaltando quando é necessário pedir ajuda profissional.

Autor

Anna Mehoudar é formada em Psicologia. Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, foi uma das fundadoras do Grupo de Apoio a Maternidade e Paternidade (Gamp). Nesse grupo, coordena o Curso de Preparação para o parto e Cuidados com o Bebê e dirige a equipe de enfermagem clínica que realiza atendimento domiciliar pós-parto com retaguarda psicanalítica. O trabalho acontece na sede do Gamp e também com funcionários de empresas.

Sua atuação em programas sociais começou na década de 1990, com passagem por diversas instituições de atenção à saúde e por ONGs. Membro da Associação dos Pesquisadores Sem Fronteiras, atualmente participa, com grupo de psicanalistas do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes, do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis. Desenvolve projeto de capacitação de multiplicadores para Instituto Criança é Vida e atende em consultório particular na cidade de São Paulo.

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